O limite de 1000 ppm que aparece em quase toda ficha técnica de medidor de CO2 foi removido da norma ASHRAE em 1999. Ele nunca foi um limite de saúde ou de desempenho: na edição de 1989 da Standard 62, 1000 ppm era apenas um marcador de odor corporal, um indicador indireto de que havia gente demais para o ar fornecido. Mesmo assim, o número sobrevive em especificações de projeto, em relatórios ESG e em decisões de compra. Quem gerencia um edifício em 2026 precisa saber o que a pesquisa efetivamente mediu, em quais concentrações, e onde as citações populares se perdem.
O estudo mais citado é o COGfx de Harvard (Allen et al., 2016, Environmental Health Perspectives). Trabalhadores de escritório passaram dias em ambientes com cerca de 550, 945 e 1400 ppm de CO2. Em comparação com 550 ppm, as pontuações cognitivas foram em média 15% mais baixas a 945 ppm e 50% mais baixas a 1400 ppm. O detalhe que costuma ficar de fora: nesse estudo o CO2 variou junto com outras condições de ventilação, portanto ele mede o efeito do ambiente, e não do gás isolado.
O trabalho do Lawrence Berkeley National Laboratory (Satish et al., 2012, mesma revista) é o que isola o CO2. Vinte e dois participantes foram testados a 600, 1000 e 2500 ppm, alterando apenas a concentração de CO2. A 1000 ppm, houve quedas moderadas e estatisticamente significativas em seis das nove escalas de tomada de decisão. A 2500 ppm, quedas grandes em sete das nove escalas; a pontuação de iniciativa caiu de 20,1 para 1,4. É uma amostra pequena, mas é o único dos três estudos em que o CO2 é a variável única.
O terceiro pilar é o estudo global do COGfx (2021, Environmental Research Letters), com 302 trabalhadores em seis países, medidos nos próprios escritórios. Cada 500 ppm adicionais de CO2 corresponderam a respostas 1,4% a 1,8% mais lentas e a 2,1% a 2,4% menos respostas corretas por minuto. Os autores não encontraram um nível abaixo do qual o efeito desaparecesse. Para quem define metas de qualidade do ar interior, isso significa que "estar abaixo de X ppm" é uma escolha de custo-benefício, não uma linha de segurança.
Seppänen, Fisk e Lei (2006) consolidaram estudos de escritório e chegaram a uma regra prática: o desempenho no trabalho sobe cerca de 0,8% para cada 10 cfm (4,7 litros por segundo por pessoa) de ventilação adicional, válida para vazões iniciais entre 6,5 e 14 litros por segundo por pessoa. O World Green Building Council (2014) estimou que uma melhor qualidade do ar interior pode aumentar a produtividade em 8% a 11%. Em um edifício de escritórios onde a folha de pagamento supera em muito o custo de energia da climatização, essa faixa costuma justificar a modernização do controle de ventilação por si só.
Repare que nenhuma dessas referências trata o CO2 como poluente de risco nas concentrações típicas de um edifício. Elas o usam como indicador de ventilação por ocupante, que é exatamente o uso correto para um facility manager.
Todas as referências e links para os artigos originais estão na versão em inglês deste texto: CO2 and cognitive performance: what the research actually found (2026).
Grande parte dos escritórios e escolas no Brasil usa split ou VRF sem tomada de ar externo. O sistema resfria e recircula, e o termostato marca conforto enquanto o CO2 escritório sobe sem que ninguém perceba. Quem mede pela primeira vez uma sala de reunião fechada, com ar-condicionado ligado e porta fechada, costuma se surpreender: a temperatura está perfeita e a concentração está na faixa que a HSE classifica como "exige ação". O segundo erro recorrente é a posição do medidor de CO2: perto da porta, da janela ou do difusor de insuflamento, o sensor lê o ar que acaba de entrar, não o ar que as pessoas respiram. Um único sensor no duto de retorno de um andar inteiro produz uma média confortável que esconde as salas problemáticas.
A conclusão prática dos três estudos é a mesma: o efeito do CO2 é contínuo e depende de quantas pessoas estão na sala agora, não de quantas o projeto previu. Por isso a medição precisa ser por ambiente e em tempo real, combinando a concentração de CO2 com a contagem de ocupantes. Quando esses dois dados chegam ao controle de climatização, a ventilação por demanda deixa de seguir um cronograma e passa a seguir o uso real: uma sala vazia não gasta energia renovando ar, e uma sala lotada não espera o próximo ciclo. Na contagem de pessoas, a precisão contratual mínima é de 96%, e tipicamente fica entre 98% e 99% quando as condições de iluminação, layout e comportamento dos ocupantes permitem; para o controle de ventilação, essa margem é mais do que suficiente. Veja como funciona em monitoramento de qualidade do ar interior por ambiente.
Qual é um bom nível de CO2 em escritórios? A HSE britânica considera que valores abaixo de 800 ppm indicam boa ventilação, e a EN 16798-1 coloca a categoria II em 800 ppm acima do ar externo. O estudo global do COGfx não encontrou nível sem efeito, então quanto mais baixo, melhor, dentro do que o orçamento de energia permite.
Existe limite de CO2 em ambientes internos? Não há limite legal de CO2 na ASHRAE 62.1, que o considera não tóxico até 5000 ppm. O que existe são faixas de referência para ventilação, como as categorias da EN 16798-1 e o gatilho de ação da HSE em 1500 ppm.
Como o CO2 afeta a concentração? Em Berkeley, apenas o CO2 a 1000 ppm reduziu seis de nove escalas de tomada de decisão, e a 2500 ppm a iniciativa caiu de 20,1 para 1,4. Em Harvard, o ambiente a 1400 ppm produziu pontuações cognitivas 50% menores do que a 550 ppm. Os efeitos são graduais, e por isso o monitoramento contínuo importa mais do que uma medição pontual.
Se você quer saber quais salas do seu edifício ultrapassam 1000 ppm, em quais horários e com quantas pessoas dentro, antes de decidir onde investir em ventilação, fale com a equipe da Vemco para planejar um levantamento de CO2 e ocupação por ambiente.
Última revisão: setembro de 2026.